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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Nosso Marley, e nós

Carta ao Átila



Sim, eu tive um Marley na minha infância. Quer dizer eu não, meu pai ... eu era apenas uma das crianças da casa que teve o privilégio de conhecê-lo e conviver contigo.

Átila. Cachorrão grande, mistura de capa preta com pastor alemão ... Lindo! Pêlo preto brilhante. Lembro bem de você.

Nossos bracinhos finos de criança tentavam dar a volta no seu pescoção e ficávamos abraçadas com você assim.

Você foi o nosso primeiro cachorro. Nós nascemos e você já estava lá, Átila. Sempre achei lindo o seu nome, que meu pai escolheu. Nome forte, áustero, diferente. Você já fazia parte da família quando chegamos, uma a uma ... as intrusas no caso, éramos nós, as crianças...rs

Você era o nosso cão herói, salvou o pai e o tio Mingo de levar tiros ... foi lindo o que você fez. Coisa de cinema, como diz meu pai. Eu tão pequena, fiquei admirada, orgulhosa, agradecida. Quando aqueles bandidos entraram no bar e apontaram a arma para eles, você foi para a direção deles e pulou em cima deles, dai foi você quem levou o tiro, não é? Muita sorte que o tiro acertou apenas na sua pata ... Cachorro corajoso. Sofreu, eu lembro disto, mas meu pai cuidou de você. A bala atravessou a patinha (ou patona, porque era imensa)...

Esta é apenas uma das histórias que eu vivi com você, meu pai certamente escreveria um livro sobre o "nosso cão herói"!

Meu pai o ensinou a ficar alerta com as situações de perigo, eu lembro. Era só você ouvir a frase "Atropela, Átila... atropela" que já partia para cima de quem quer que fosse... sempre foi o nosso cão guarda costas.

Era lindo você, Átila... deixou saudades!

Nesta época nós assistíamos o seriado Lassie na TV e era como se NÓS vivessémos um seriado com você.

Você tinha o andar igualzinho o do pai... todo pacato ... sossegado ... muito engraçado.

Quando você adoeceu nós todos da família sentimos muito. Quando faleceu então... foi dolorido demais. Foi a primeira morte em família para mim. Foi muito triste.

Em todo cão que tivemos depois de você sempre procurámos um "Átila" ... sempre... mas entendi depois de muito tempo que igual a você não existe, não, Átila. Você foi e será o único. Isto não quer dizer que não gostamos dos outros... gostamos sim, mas você era especial.

Você é a lembrança da minha infância ... assim como a Fazenda São Joaquim, você faz parte da minha história e hoje o que eterniza este momento é a sua foto ... com ela revivo as lembranças como fazendo uma viagem...

"Nessa estrada
Um pé nas nuvens
Outro pé noutro lugar
Uma saudade
Uma viagem
Onde vai meu coração

inda hoje inda bem no caminho
canto alegre
é você tão feliz e sozinho
uma velha canção rock´n roll"

Muitas Saudades, Átila.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Limites


Limites


Somos as primeiras gerações de pais decididos a não repetir com os filhos, os erros de nossos progenitores...

...e com o esforço de abolirmos os abusos do passado...

...somos os pais mais dedicados e compreensivos

mas, por outro lado...

...os mais bobos e inseguros que já houve na história.


O grave é que estamos lidando com crianças mais “espertas” do que nós, ousadas, e mais “poderosas” que nunca!


Parece que, em nossa tentativa de sermos os pais que queríamos ser, passamos de um extremo ao outro.


Assim, somos a última geração de filhos que obedeceram a seus pais...
... e a primeira geração de pais que obedecem a seus filhos.


Os últimos que tivemos medo dos pais....
...e os primeiros que tememos os filhos.


Os últimos que cresceram sob o mando dos pais...
E os primeiros que vivem sob o jugo dos filhos.


E, o que é pior...
...os últimos que respeitamos nossos pais...
(ÀS vezes sem escolhas...)
...e os primeiros que aceitamos que nossos filhos nos faltem com o respeito.


À medida que o permissível substituiu o autoritarismo, os termos das relações familiares mudou de forma radical...


...para o bem
e para o mal.



Com efeito, antes se considerava um bom pai, aquele cujos filhos se comportavam bem, obedeciam suas ordens, e os tratavam com o devido respeito.

E bons filhos, as crianças que eram formais, e veneravam seus pais, mas à medida em que as fronteiras hierárquicas entre nós e nossos filhos foram se desvanecendo...


...hoje, os bons pais são aqueles que conseguem que seus filhos os amem, ainda que pouco o respeitem.

E são os filhos, quem agora, esperam respeito de seus pais, pretendendo de tal maneira que respeitem suas idéias, seus gostos, suas preferências e sua forma de agir e viver.

E que além disso, que patrocinem no que necessitarem para tal fim.


Quer dizer ;
os papéis se inverteram.

Agora são os pais que têm que agradar a seus filhos para “ganhá-los” e não o inverso como no passado.

Isto explica o esforço que fazem tantos pais e mães para serem os melhores amigos e “darem tudo”
a seus filhos.


Dizem que os extremos se atraem.....
Se o autoritarismo do passado encheu os filhos de medo de seus pais...

...a debilidade do presente os preenche de medo e menosprezo...
aos nos verem tão débeis e perdidos como eles.



Os filhos precisam perceber que durante a infância, estamos à frente de suas vidas, como líderes
capazes de sujeitá-los quando não os podemos conter...
... e de guiá-los, enquanto não sabem para onde vão...

É assim que evitaremos que as novas gerações se afoguem no descontrole e tédio no qual está afundando uma sociedade que parece ir à deriva, sem parâmetros nem destino.


Se o autoritarismo suplanta, o permissível sufoca.


Apenas uma atitude firme, respeitosa, lhes permitirá confiar em nossa idoneidade para governar suas vidas enquanto forem menores, porque vamos à frente liderando - os...

...e não atrás, carregando - os e rendidos às suas vontades.


Os limites
abrigam o indivíduo.

Com amor ilimitado
e profundo respeito.


Mônica Monastério
( Madrid-Espanha )